Salas VIP mais restritas e anuidades mais caras: o que mudou nos cartões no 1º semestre de 2026
O primeiro semestre de 2026 foi marcado por várias mudanças no mundo dos cartões de crédito. De janeiro para cá, vimos aumentos de anuidade, cortes em acessos a salas VIP, e os bancos apostando mais na fidelização do cliente.
Neste texto, eu fiz uma retrospectiva dos principais movimentos do último semestre e analiso o que esses sinais podem indicar para o mercado de cartões nos próximos meses.
Linha do tempo: as principais mudanças nos cartões no 1º semestre
Para montar a tabela, considerei mudanças anunciadas no primeiro semestre, incluindo aquelas que só passaram a valer nos meses seguintes.
Quando observamos os movimentos em conjunto, fica claro que as mudanças não aconteceram de forma isolada.
Pelo contrário, em vários casos, os bancos mexeram em mais de uma frente: aumentaram a anuidade, reduziram benefícios e, ao mesmo tempo, tentaram compensar clientes com mais pontos, novos cartões ou vantagens por relacionamento.
Cartões premium ficaram mais caros

A tendência mais clara do semestre foi o aumento do custo dos cartões premium. O caso mais simbólico foi o BRB Dux.
O cartão, que era um dos mais desejados do Brasil, teve a anuidade aumentada de R$ 1.680 para R$ 4.800 – alta de 186%. Na mesma leva, o banco também aumentou a meta de gastos para isenção e o limite mínimo para ter o cartão.
Movimento parecido aconteceu no Banco do Brasil, que anunciou reajuste na anuidade do Altus Visa Infinite. A partir de 13/07, a tarifa do cartão vai subir de R$ 1.800 para R$ 4.000. A meta de gastos para conseguir isenção também aumentou.
Esses casos mostram que os cartões mais completos estão ficando mais caros de manter, e isso muda a conta que o cliente paga. Afinal de contas, do que adianta manter um cartão que pesa no seu orçamento, mesmo considerando os benefícios que ele oferece?
Salas VIP ficaram mais restritas

Pelo movimento recente dos bancos, o acesso a salas VIP é um dos benefícios mais pressionados nos cartões premium.
Nos últimos anos, os lounges se tornaram um dos principais atrativos dos cartões de alta renda. Só que, com a popularização do benefício, as salas também passaram a ficar mais cheias, e isso acabou pesando para os bancos. Custear acessos aos lounges não é barato, especialmente quando o cartão oferece entradas ilimitadas e/ou com direito a convidados.
Por isso, as instituições têm seguido caminhos diferentes para controlar essa vantagem e reduzir o custo. Em alguns casos, diminuíram a quantidade de acessos. Em outros, mantiveram o benefício, mas elevaram a anuidade ou a exigência de gastos.
É o caso do BRB Dux e do Altus Visa Infinite, citados acima. Em vez de cortarem o acesso ilimitado, os bancos aumentaram a anuidade dos cartões.
Outros dois exemplos são o Bradesco Aeternum, que deixou de oferecer acessos gratuitos pelo LoungeKey, e o Porto Bank, que reduziu de 10 para 6 os acessos gratuitos de seus cartões Black e Infinite. Nos dois casos, a mudança veio acompanhada de aumento de anuidade.

O Santander também aumentou a exigência de gasto mínimo para acessar salas VIP com cartões Unlimited e Unique.
O movimento mostra que, quando os bancos precisam cortar custos ou reposicionar seus produtos, as salas VIP costumam estar entre os primeiros benefícios a passar por ajustes.
Relacionamento virou a nova moeda dos bancos

Uma das mudanças mais importantes do semestre foi a valorização do relacionamento como critério para acessar melhores benefícios.
A XP reformulou o XP Visa Infinite. Agora, o cartão oferece mais pontos ou cashback para quem usa a conta digital, paga boletos ou faz portabilidade de salário para a corretora. Para se ter uma ideia, até o XP One passou a oferecer pontos Livelo.
Recentemente, a XP reduziu o valor mínimo para pedir o cartão Infinite, movimento que sinaliza uma tentativa de ampliar a base de clientes elegíveis e aprofundar o relacionamento com a plataforma.

O Santander seguiu uma linha parecida com o Rewards, que veio para substituir o Bateu Ganhou. A antiga promoção premiava os clientes dentro de uma campanha temporária, com metas específicas de gasto a cumprir. Já o Rewards funciona de forma contínua: quanto maior for o relacionamento com o banco, maior a pontuação do cartão.
Na prática, os bancos parecem mais interessados em bonificar o cliente que concentra a vida financeira na instituição. Não é que isso seja exatamente novo, mas o movimento indica que esse critério deve ganhar cada vez mais peso daqui para frente.
Para quem já usa o banco no dia a dia, isso pode ser positivo. Mas, para quem mantinha um cartão apenas por um benefício específico, como pontuação alta, sala VIP ou cashback, a conta pode ficar mais cara e, muitas vezes, ter uma certa limitação nos benefícios disponibilizados.
A disputa pelo cliente de altíssima renda segue forte

Enquanto alguns cartões premium passaram por cortes, reajustes ou novas exigências, o primeiro semestre também teve lançamentos de produtos ainda mais exclusivos. Foram dois novos “supercartões” voltados para públicos bem restritos.
O Itaú lançou o Private World Legend e, pouco tempo depois, o Personnalité World Legend. São cartões voltados para clientes de altíssima renda, com benefícios em viagens, hotéis, restaurantes e experiências premium.
O C6 reforçou essa disputa no topo ao aumentar a pontuação do Graphene para 5 pontos por dólar em compras nacionais e 8 pontos por dólar em compras internacionais.
Essa movimentação acabou consolidando o reposicionamento dos cartões Black e Infinite. Os bancos fortalecendo os produtos mais segmentados para clientes de altíssima renda, ao mesmo tempo em que revisam os benefícios dos cartões premium tradicionais.
Benefícios podem ser revistos conforme a estratégia da instituição

O semestre mostrou que, quando um cartão novo chega com uma proposta mais forte, outros produtos da mesma prateleira podem perder espaço e ter benefícios revistos.
O RecargaPay é um bom exemplo disso. O Titan foi lançado com uma proposta agressiva de cashback, anuidade grátis e acesso limitado a salas VIP. Poucos meses depois, o banco reduziu o cashback do cartão Platinum de 1,5% para 0,8%.
Não dá para afirmar que uma mudança tenha relação direta com a outra, mas ficou claro que o Platinum está posicionado abaixo do Titan dentro do RecargaPay.

Antes, ele oferecia o mesmo cashback das versões Black e Internacional, mas sem reunir os principais atrativos de cada uma: não tinha os acessos a sala VIP do Black nem a anuidade grátis do Internacional. Com a chegada do Titan, que combina cashback mais alto, anuidade grátis e sala VIP, o Platinum acabou completamente ofuscado.
Pontuação alta também vem com condições
Mas nem só de notícias ruins vivemos. Nos últimos meses também vimos o aumento de pontuação em cartões da XP, Santander, Caixa, C6, BRB e Bradesco (nos dois últimos, a pontuação turbinada só começará a valer no segundo semestre).
No entanto, na maioria dos casos, esse ganho veio acompanhado de alguma condição ou de contexto específico.

Na XP, a pontuação maior depende do uso da conta digital. No Santander, o Rewards segue uma lógica parecida: quanto maior o relacionamento com o banco, maior a pontuação.
Já no BRB e no Bradesco, os aumentos de pontuação vieram depois de mudanças relevantes em anuidades, exigências ou benefícios. É difícil não ver esse movimento como uma forma de “compensar” os ajustes e cortes que aconteceram nos meses anteriores.
Tudo isso reforça que a pontuação pode ser muito atrativa, mas não basta para dizer se um cartão vale a pena. Antes de escolher, é preciso entender o custo real para acessar aquele benefício.
Mais pontos em compras internacionais? Cuidado!
Analisar o custo real da pontuação é ainda mais importante nos cartões que oferecem pontuação turbinada em compras internacionais.
À primeira vista, ganhar mais pontos por dólar gasto no exterior parece excelente. Mas essas compras também envolvem IOF e spread cambial, o que aumenta o custo da transação. Dependendo da diferença de pontuação e do custo da conversão, o benefício pode não compensar tanto quanto parece.
O que esperar daqui para frente?

Com base nos últimos meses, a tendência mais forte parece ser a segmentação. Os bancos não devem abandonar o público dos cartões Black e Infinite mais “convencionais”, já que ele continua sendo importante. Entretanto, o acesso aos melhores benefícios deve depender mais de relacionamento com a instituição.
Na prática, os benefícios premium continuarão existindo, mas serão mais condicionais. Pontuação alta, cashback, salas VIP e isenção de anuidade tendem a ficar mais ligados a metas de gasto, clubes, investimentos, portabilidade de salário, uso da conta digital ou nível de relacionamento.
Isso também pode aparecer de outras formas: anuidades mais altas, metas de isenção maiores, exigência de gasto mínimo para liberar salas VIP, limite de convidados, etc.
A mensagem final é que o cartão está deixando de ser um produto isolado. Cada vez mais, ele funciona como porta de entrada para um relacionamento maior com a instituição.
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